Um blogue pessoal mas... transmissível

28
Jan 09

 

Decidi que um dia destes vou deixar de fumar. A sensatez da idade exige-me que o faça e não tente adiar mais a decisão. Já não sinto o mesmo prazer que costumava sentir. O cheiro a fumo de tabaco no corpo e nas roupas começa a incomodar-me. As preocupações com a saúde e o bem-estar físico começam também a falar mais alto. Não sei se vou conseguir deixar os cigarros de vez, pois tentei deixar de fumar várias vezes e nunca consegui. Porque eu penso que deixar de fumar não significa apenas apagar o cigarro. A verdadeira solução para deixar de fumar é não voltar a acendê-lo. Porque se, num momento de crise, acendemos um cigarro estamos feitos. Falhámos. Podemos apagá-lo logo a seguir, arrependidos, podemos apagar mais cinco nesse dia ou no dia seguinte, mas o mais provável é regressar ao velho hábito de fumar uns vinte cigarros por dia. Deixar de fumar é tão difícil que não sei até que ponto não faria sentido promover-se umas reuniões do tipo "Alcoólicos Anónimos", mas dedicadas apenas a ex-fumadores. O participante levantava-se, apresentava-se aos restantes ex-fumadores e, com um sorriso de orelha a orelha, anunciava: "Já não fumo um cigarro há um mês". Toda a gente aplaudiria e com razão, pois deixar de fumar é mesmo um feito notável.


Já passei por fases da minha vida em que fumava compulsivamente. Algumas vezes sentia-me dependente da nicotina. Não me passava pela cabeça adormecer sem fumar um último cigarro. Era capaz de sair de casa a meio da noite, se preciso fosse, enfrentando estoicamente a chuva, o vento e o frio, só para comprar um maço de tabaco. Caso fosse impossível sair, amaldiçoava o mundo e deitava-me à espera de um milagre: adormecer. De manhã, quando acordava, das primeiras coisas em que pensava era fumar um cigarro, embora seja incapaz de o fazer em jejum. E então apressava-me a tomar o pequeno-almoço para poder meter nicotina nas veias o mais depressa possível e fornecer aos meus pulmões a sua dose diária de veneno. Estudar sem cigarros era impossível. Mal começava o estudo e já precisava de fumar. Interrompia o estudo para fumar um cigarro. Quando acabava o estudo, fumava outro. Se precisava de pensar em qualquer outra coisa para fazer, tinha de pedir ajuda ao cigarro. Se uma conversa estivesse interessante, apetecia-me fumar; se uma conversa não estivesse interessante, ainda me apetecia fumar mais. Se estivesse a passar um bom bocado, fumava por me sentir satisfeito; se estivesse aborrecido, fumava por estar aborrecido. Na ilusão de que apenas com o cigarro é possível acalmar, concentrar, relaxar… E, de facto, psicologicamente era o que sentia, o que me levava a fumar mais e mais…


Nessas fases, que felizmente não duravam muito tempo, podia associar o cigarro a praticamente qualquer actividade, pois o que eu queria era arranjar desculpas para acendê-lo. E esse impulso irracional comandava a minha vida ao ponto de quase inviabilizar relações. O meu primeiro namorado não fumava, detestava que eu o fizesse e estava sempre a censurar-me. Até ao dia em que me virei para ele e lhe disse, muito convencido da justeza da minha posição: "Se alguém quiser ficar comigo, tem de me aceitar como eu sou e as coisas que eu gosto de fazer. E isso inclui fumar". Nem mais. Porque em todas as situações, em todos os momentos, o cigarrinho é o melhor amigo do fumador e não conseguimos abdicar dele, nem por um grande amor. É que quando se acende um cigarro a seguir ao outro, parece um acto natural, quase uma extensão do nosso próprio corpo; contudo, se pensarmos sem a camuflagem psicológica do fumador, concluiremos que respirar fumo e enfiar veneno no sangue é profundamente irracional. Mesmo que um dia nos tenham convencido do contrário e de que fumar é um acto 'cool', na verdade é uma grande estupidez. Aliás foi assim que mais ou menos toda a gente se iniciou no vício, porque fumar era um acto 'cool' e uma prova de rebeldia. Também eu comecei assim, muito cedo, por volta dos meus 15-16 anos, às escondidas, no pátio do liceu. E desde então nunca mais larguei os cigarros, embora muitas vezes o ritmo com que fumava fosse muito baixo e levasse a interrogar-me sobre as razões por que o fazia.


Embora esteja a atravessar uma fase menos boa da minha vida, tenho controlado esse meu vício pouco saudável e – surpresa das surpresas – ainda não bati com a cabeça nas paredes. Desde segunda-feira que não fumo e não estou a contar os dias sem o tabaco como se fosse um condenado. É verdade que ando mais impaciente, mas quero acreditar que vou conseguir, nem que seja reduzir a mínimos históricos a dose diária de nicotina. Se conseguir abandonar o tabaco de vez, não me tornarei um fundamentalista anti-tabagista, pois detesto todas as formas de fundamentalismo. Continuarei a conviver pacificamente com gente que fuma e com gente que não fuma e, a não ser que me peçam, não chatearei ninguém com as minhas histórias…
 

publicado por Pensador Insuspeito às 20:18

Olá Olá!!
Não é mesmo nada fácil deixar de fumar meu amigo.
Tive 40 dias sem fumar... mas não aguentei. lolol Tava tao forte psicologicamente que nem sei porque desisti. Talvez por me terem dito que so passado 5 anos passamos a não fumadores. Fiquei desiludido. lolol
Mas tb tenho mesmo que deixar. Ao final do ano são 1000 e tal euros gastos em tabaco. uma bela viagem se faz com esse dinheiro.
Um forte abraço
Baltazar a 29 de Janeiro de 2009 às 02:49

Eu também fumo e já à uns anos, muitas vezes penso em deixar de fumar, o simples cheiro do tabaco não me incomoda, mas é engraçado que o cheiro nos outros sim, incomoda e bastante. Adoro sair sozinho e tomar um café e um simples cigarro é a minha companhia. Mas de certeza que um dia destes vou ter de largar este maldito vicio.
Ah, e adorei a musica. . .
Grande abraço.

G!
guga a 29 de Janeiro de 2009 às 13:59

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