Um blogue pessoal mas... transmissível

30
Jul 09

 

 

Há dias pude ler no Público a opinião de um leitor devidamente identificado que dizia sentir-se incomodado com o "destaque excessivo" que o referido diário tem conferido nos últimos tempos aos temas relacionados com a homossexualidade. Não sou fundamentalista e detesto todos os tipos de fundamentalismos. Por conseguinte, não me vou colocar aqui na posição de muitas pessoas que por serem objecto de uma opinião contrária parece quererem instaurar imediatamente a censura na boa tradição das ditaduras de todos os quadrantes políticos. Aliás, estamos num país livre e democrático (até ver…) e todas as opiniões são bem-vindas, desde que devidamente fundamentadas e não fruto de uma visão distorcida da realidade envolvente. Porque, como diz o nosso povo, "o pior cego é aquele que não quer ver".

 

Pois bem, o que me leva a escrever este post/pensamento é o facto de o referido leitor considerar verdadeiramente "inusitada" a visibilidade que hoje em dia é dada aos homossexuais e aos temas que abordam essa realidade. Pode-se perguntar então porque motivo é que o mesmo leitor não se queixa do destaque excessivo que é dado à heterossexualidade em todos os órgãos de informação. Parece-me que o referido jornal, ao abordar essa temática, mais não faz do que acompanhar a evolução social e cultural dos tempos, tendo como único objectivo fazer bom jornalismo e por isso mesmo não discriminando ou abafando uma realidade que pelos vistos não agrada a muitos leitores, mas à qual é preciso conferir cada vez maior visibilidade, sobretudo se tal visibilidade for aproveitada para que os homossexuais possam ver reconhecidos os mais elementares direitos de cidadania.

 

Refere-se o leitor à recente reportagem sobre a homossexualidade no Estado Novo, afirmando nomeadamente que o Público insiste de forma "desconchavada" em tais matérias. Torna-se por demais evidente que o leitor, e como ele muitos outros neste país de brandos costumes, não conseguiu ler criteriosamente essa e outras reportagens e artigos, pois se o tivesse feito, livre de preconceitos e afins, dar-se-ia conta que revelam, na minha opinião de simples leitor, uma apurada investigação jornalística. Também não parecem ser obra de um qualquer lobby gay como muitas pessoas obstinadamente acusam todos aqueles que tratam essas matérias livres de ideias e opiniões preconcebidas. Neste sentido, pergunto-me se um tal artigo de opinião corresponde àquilo a que habitualmente chamamos "direito de opinião" ou se, pelo contrário, é revelador daquela homofobia larvar de que ainda enferma grande parte da sociedade portuguesa.

 

Outra coisa interessante é a comparação que o leitor faz entre o diário português e o jornal espanhol El País. A meu ver, a comparação é perfeitamente desajustada. Isto porque os dois jornais se inscrevem em realidades sociais bem distintas. Por um lado, a realidade nacional em que a conquista plena dos direitos de cidadania pelos homossexuais ainda está por fazer, e se assim é nunca será excessivo o destaque que é conferido a essa temática. Por outro lado, o contexto do país vizinho em que essa consagração já foi alcançada, sendo por isso perfeitamente compreensível que já não faça tanto sentido falar dos assuntos que tanto incomodam o referido leitor. Aliás, a este respeito não é só na Península Ibérica que as coisas andam a duas velocidades. Por contraste, ainda recentemente a Suécia tornou-se no 7.º país a legalizar os casamentos homossexuais enquanto que, do outro lado do mar Báltico, a Lituânia aprovou legislação no sentido de proibir a divulgação da homossexualidade...

 

E não será pelo facto de estarmos a viver a chamada silly season que tudo parece valer, como diz o indignado leitor no seu artigo. Nunca será demais pugnar pela defesa dos direitos de cidadania que há demasiado tempo são negados a um grupo de pessoas pelo simples facto de possuírem uma orientação sexual diferente da maioria da população. Whatta fuck!? Afinal em que medida é que a minha orientação sexual pode afectar a vida do pacato leitor e de tantos outros por esse país fora? O que o deveria afectar em consciência é a forma como os homossexuais ainda são tratados na sociedade portuguesa. Isso sim deveria constituir um grave problema na consciência de muitas pessoas, especialmente na consciência de todos aqueles que com as suas posições públicas mais não fazem do que alimentar o preconceito homofóbico e acrescentar sofrimento a muitos homossexuais. Mas para todos aqueles que se preocupam realmente com que a democracia seja uma realidade neste país será de louvar que jornais como o Público tratem com o destaque merecido a homossexualidade e outros temas que saem dos padrões da dita "normalidade" para que, um dia destes e de uma vez por todas, esses temas deixem de merecer o "destaque excessivo" de que se queixa o referido leitor.

 


28
Jul 09

 

 

Neste fim-de-semana, eu e o R. decidimos fazer uma incursão na noite gay da Cidade Invicta. Confesso que há muito tempo que não frequentava a "cena gay" porque de cada vez que o fazia sentia que estava a desperdiçar o meu tempo e que aquele ambiente estereotipado pouco tinha a ver comigo.

 

Além disso, não sou grande apologista de locais que se podem confundir facilmente com guetos para onde se procuram atirar as pessoas indesejadas com o intuito de as ocultar da vista do comum dos mortais. É por estas e outras que a homossexualidade passa quase despercebida à grande maioria das pessoas. Sabem que existe mas encaram os homossexuais como alienígenas que se encontram regularmente em locais muito estranhos e obscuros. E por isso a homofobia continua a campear, especialmente nos pequenos meios, onde os homossexuais ainda têm mais propensão a "esconder-se" em locais como esses. Para mim, a homossexualidade tem de vir cada vez mais para a luz do dia e os homossexuais têm de "misturar-se" com todas as outras pessoas. Mas isto daria assunto para outro post/pensamento.

 

O que é certo é que o R. propôs-me uma noite de sábado diferente e desta vez eu acedi. De tudo o que pude observar nos locais por onde passámos - primeiro um bar gay friendly e seguidamente uma disco gay - é que realmente pouca coisa muda com o passar dos anos. À primeira vista, o ambiente até pode ser descontraído e agradável, mas rapidamente apercebemo-nos que a imensa maioria dos gays está ali com um propósito bem definido: engatar. Não interessa quem. O que interessa é engatar alguém para aquela noite ou para o que resta dela. É um autêntico "mercado de carne"... Acresce que muitas destas pessoas têm uma propensão doentia para opinar sobre a vida dos amigos, conhecidos, ex-namorados. Comenta-se sobre quem anda com quem, sobre o facto de A. e B. terem rompido, que C. anda à procura de nova relação, que D. veste mal, que E. engordou...

 

Posso estar a ser exagerado e a tomar a parte pelo todo, mas causa-me imensa confusão ver toda aquela gente com o único propósito de engatar alguém para uma noite de sexo. Acho que cada um deve ser livre de fazer o que quiser com a sua vida desde que isso não afecte a vida de terceiros. No entanto, questiono-me sempre sobre a razão de ser de um comportamento tão promíscuo. Será que ninguém tem expectativas mais elevadas em relação à sua vida sentimental? Parece que nestes meios tudo gira em torno do sexo e que para além dele nada mais existe. Eu gosto muito de sexo mas no estádio actual da minha existência já não me contento com sexo puro e duro. Para mim, actualmente, sexo sem amor não faz qualquer sentido. Porque sexo sem amor é um acto puramente mecânico sem aquele misto de sentimentos que só o sexo entre duas pessoas que se amam pode oferecer.

 

Depois ninguém se lembra que, por alguma razão, o sexo pode acabar de um dia para o outro, e nesse caso não fica mais nada. Não existe amor, carinho, companheirismo. Fica apenas solidão, carência, vazio. E frequentemente isso é a porta aberta para o suicídio. Por outro lado, também os gays envelhecem e quantas vezes, no meio da solidão e do desespero, procuram construir aquilo que na juventude e meia-idade não quiseram ou não foram capazes de construir. Parece que ninguém ou quase ninguém quer investir numa relação estável e duradoura que possa oferecer segurança e bem-estar na velhice.

 

E para não me alongar mais neste pensamento, diria que depois desta noite a minha opinião sobre estes locais em nada mudou. Apesar de estar acompanhado pelo meu namorado, fui insistentemente penetrado pelos olhares de quem ali se encontrava e por duas vezes até fui apalpado. Então quando o R. foi apalpado quase me passei! Por isso, resolvemos sair dali e procurar um local menos "obscuro" para acabar a noite...

 


11
Jul 09

 

 

Depois de um longo período de ausência, motivado por questões pessoais e profissionais, volto a este meu cantinho para agradecer aos internautas que, apesar disso, continuam a visitar-me por aqui e para homenagear uma pessoa extraordinária que tenho o prazer de contar no meu círculo de amigos e do qual, por razões que a seguir compreenderão, não mencionarei sequer a inicial do nome próprio. É que este amigo tão especial é seropositivo e apenas um número muito restrito de pessoas sabem desse facto.

 

O meu amigo completa hoje mais um aniversário. Foi infectado há apenas dois anos quando ainda se encontrava numa relação que entretanto terminou. O namorado foi tão desumano e cruel que, quando o meu amigo fez os testes que se vieram a revelar positivos e lhe comunicou os resultados, simplesmente lhe respondeu: "E o que é que eu tenho a ver com isso?". Perante esta situação, o meu amigo ficou completamente desorientado, a ponto de pensar suicidar-se.

 

Felizmente que o apoio dos poucos amigos a quem ele entretanto revelou esse "segredo" foi determinante para que ele desse a volta por cima. E hoje é ele que dá uma lição de vida a todos nós, os amigos que o acompanham desde o início nesta luta. Porque o valor da amizade verdadeira é muito mais importante que todas as contingências da nossa vida. Nesta situação de grande vulnerabilidade, é importante a presença dos amigos. Todos sabemos que a discriminação reina, mesmo nos ambientes gay, e as pessoas nesta situação são facilmente atiradas para "guetos". Todos temem alguém que saibam ser seropositivo. Para a maior parte das pessoas, é um caso perdido. Mas infelizmente a vida pode pregar-nos partidas inesperadas. De facto, quantas vezes alguém que rejeita relacionar-se com um seropositivo, acaba por fazê-lo com uma pessoa que lhe esconde a sua seropositividade e como ambos gostam de o fazer "ao natural" não se protegem. E eis como alguém que teme o que conhece, ganha um "bónus de vida" de um desconhecido que na maior parte dos casos nunca mais verá...

 

Aproveito assim este meu post/pensamento para homenagear o meu amigo e todos aqueles que, neste deserto de hipocrisia e desumanidade, são capazes de amar apesar de todas as discriminações e preconceitos, sabendo que os seropositivos vivem o dia-a-dia com uma força e desejo de viver que os outros por vezes não compreendem...

 


31
Mar 09

 

 

Há dias fiquei a saber que o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, sediado em Genebra, inclui entre os seus membros países como a Arábia Saudita e a China, e ainda outros como o Egipto ou o Paquistão, países onde se pratica a tortura e a pena de morte e se violam diariamente os mais elementares direitos humanos. Ainda na semana passada, foi divulgada a notícia de que a China ocupa o primeiríssimo lugar no número de execuções sumárias em 2008, nada menos que 1718! Já para não falar na questão do Tibete, que permanece um assunto tabu para o regime chinês...

 

A propósito da Arábia Saudita e dos países muçulmanos em geral, não se podem esquecer as constantes violações dos direitos humanos, quase sempre desculpadas pela vigência da sharia islâmica. Por exemplo, no caso da homossexualidade, a Arábia Saudita pune a relação sexual entre dois homens com a pena de morte. E que dizer do Irão, onde o seu lunático presidente Ahmadinejad afirma não existirem gays? À semelhança da Arábia Saudita, a forca não é a única pena possível para as acusações de homossexualidade no Irão. A chibata é também uma alternativa quando não existem provas de que houve relação sexual. Por vezes, a sentença que recai sobre as acusações de "sodomia" tem tanto de medieval como de perverso. Para que conste, em Janeiro do ano passado, dois jovens gays foram condenados a serem colocados em sacos de plástico e atirados do alto de um precipício. Apesar dos apelos de várias personalidades e organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, a condenação foi cumprida…

 

Quando, no ano passado, Ahmadinejad declarou que o "fenómeno" da homossexualidade não existia no Irão, provocou o riso entre os alunos da Universidade norte-americana de Colúmbia. Evidentemente, a declaração é tão absurda que fez dele a caricatura de um líder fanático. Contudo, para os homossexuais iranianos, não há motivos para rir… Dito isto, só faltava mesmo é que o Irão também integrasse aquela organização das Nações Unidas para que a defesa dos direitos humanos fosse completa…

 


24
Mar 09

 

 

No passado dia 10, a Fox Life estreou a 5.ª temporada de uma das minhas séries televisivas favoritas, "Donas de Casa Desesperadas", com a emissão de um episódio duplo. Esta nova temporada começou com um salto no tempo em relação ao final da anterior e todas as personagens têm agora mais cinco anos. "A ideia do salto no tempo veio dos produtores executivos da série 'Perdidos'. Nós quisemos dar uma nova perspectiva à série para darmos a conhecer cada uma das personagens mais uma vez", afirmou Marc Cherry, o criador da série.


"Donas de Casa Desesperadas" acompanha a vida de cinco mulheres – Bree Hodge (Marcia Cross), Lynette Scavo (Felicity Huffman), Susan Delfino (Teri Hatcher), Edie Britt (Nicollette Sheridan) e Gabrielle Solis (Eva Longoria) – que moram em Wisteria Lane, um bairro suburbano nos Estados Unidos. Com personalidades muito distintas, mas com uma amizade inquebrável, estas mulheres fazem tudo ao seu alcance para estarem de bem com a vida. Tudo começou quando Mary Alice Young (Brenda Strong), vizinha das protagonistas, abandonou o seu lar perfeito, no mais agradável dos subúrbios americanos, e pôs fim à própria vida. Agora, Mary Alice mostra-nos os pormenores escondidos no dia-a-dia da família, dos amigos e dos vizinhos, acompanhando tudo do seu "elevado" ponto de vista.


Nesta 5.ª temporada, Susan tem um novo interesse romântico, Jackson (Gale Harold), mas o seu ex-marido, Mike, ainda se encontra por perto, morando também em Wisteria Lane. A Scavo Pizzeria é agora um restaurante de grande sucesso, e Lynette continua a ser a "super-mãe" de três filhos que atravessam a adolescência. Os brilhantes cozinhados de Bree, que já conhecíamos de outras temporadas, valeram à personagem uma carreira no ramo. Bree é agora uma autora de livros de culinária, e Katherine faz parte da sua equipa. No entanto, Katherine sente-se mal pois Bree é uma estrela e ela não, apesar de terem começado o negócio de culinária juntas há cinco anos atrás. Gabrielle tem duas filhas, um marido cego e um orçamento mensal pouco atractivo, pelo que a pressão familiar começa a afectá-la. Edie, que tinha partido de Wisteria Lane destroçada na quarta temporada, está de regresso com um novo marido, Dave (Neal McDonough) e novos segredos. A não perder todas as terças-feiras, num televisor perto de si.

 

 

 

Queria falar-vos agora da grande novidade trazida pela temporada anterior de "Donas de Casa Desesperadas", com a entrada em cena do casal gay Bob e Lee que se mudou para Wisteria Lane e que veio "apimentar" ainda mais esta trama de sucesso. Tuc Watkins, que interpretou também um personagem gay noutra série televisiva, dá vida ao personagem Bob, um homem calmo que trocou a cidade grande pela tranquilidade de Wisteria Lane e uma vida mais pacata, e Kevin Rahm interpreta o papel de Lee, namorado de Bob. Marc Cherry, que é gay assumido, deu na altura uma entrevista ao site gay norte-americano "After Elton", revelando que os novos personagens, as suas atitudes e os efeitos provocados na vizinhança se baseiam na sua experiência pessoal. Contudo, esta não é a primeira vez que a série aborda o tema. Numa das temporadas anteriores, o jovem Andrew (Shawn Pyfrom), filho de Bree, tem sérias dificuldades em fazer o seu coming out, e na 4.ª temporada o personagem que interpreta alcança outra projecção com a chegada dos novos vizinhos. Nesta 5.ª temporada, pensa até em casar-se com Alex (Todd Grinnell), um médico que no passado participou num filme pornográfico, o que deixa a mãe à beira de um ataque de nervos...

 

Aqui fica um vídeo com os personagens gay Andrew e Justin numa das temporadas anteriores...

 

 

 


23
Mar 09

 

Este primeiro fim-de-semana de primavera ficou marcado pelo reaparecimento na minha vida de alguém de quem não tinha quaisquer notícias há mais de três anos. Através de um simples mail tive a inesperada surpresa de ver o A. entrar novamente na minha vida. Nunca falei aqui deste amigo tão especial, um amigo daqueles que se conhecem em momentos decisivos e que nos marcam para o resto da vida, mesmo que por força das circunstâncias os nossos caminhos sigam rumos diferentes e deixemos de nos contactar com a frequência que desejávamos. Foi o que aconteceu entre mim e o A.. Uma bela amizade que não resistiu à distância e ao tempo… até agora.

 

Intitulei este post/pensamento de "Não há coincidências...". Muita gente diz-me que sim. Que há coincidências. E para justificar a sua posição, acenam-me com factos e argumentos, à primeira vista irrefutáveis. Eu, porém, continuo a pensar que não. O que interessa é saber interpretar adequadamente os sinais que se escondem por detrás dos acontecimentos que são considerados por muitos como coincidências. Provavelmente só mais tarde, quando os acontecimentos já estiverem suficientemente maturados, é que se conseguem desvendar completamente as razões pelas quais um simples acontecimento é encarado como uma grande coincidência. Até lá, apenas podemos fazer conjecturas e arriscar explicações.


Contrariamente ao que penso, considero que o facto de o A. ter entrado de novo em contacto comigo neste momento é uma grande coincidência. No momento em que um grande amor sai da minha vida, aparece alguém por quem continuo a nutrir um carinho muito especial... Sendo uma pessoa de afectos, costumo ligar-me demasiadamente aos amigos. Por isso mesmo, quando se dão os afastamentos e se quebram as amizades, sofro a dobrar. Mas é assim que eu continuo a viver as minhas amizades, mesmo contra todos os ventos e marés. Voltando à razão de ser deste reaparecimento do A. na minha vida, tenho para mim que este facto, quando nada o fazia prever, quer mostrar-me alguma coisa, precisamente quando estou a tentar libertar-me das amarras que ainda me prendem ao M..

 

É no meio de um enorme turbilhão de sentimentos e emoções, quando ainda quero acalentar uma réstia de esperança de que algo possa mudar em relação ao M. e ao mesmo tempo tento convencer-me do contrário, que novos factos vêm juntar-se à história e pessoas que são importantes para mim entram de novo em cena. Começo a pensar que no palco em que decorre a representação da minha vida já não cabe mais ninguém. Estão lá todos os personagens. A representação entrou em cena. O sucesso está garantido. Pelo menos, para quem assiste à representação não será um tempo mal empregue... Já para mim estes acontecimentos, aparentemente sem qualquer significado especial, colocam-me sempre novas questões. Por isso mesmo, acho que a representação da minha vida está a ficar demasiado complexa…


Devo dizer que eu e o A. mantivemos ao longo de anos uma relação de grande amizade. Não uma "amizade colorida", mas uma grande amizade. De todas as pessoas com quem travei amizade ao longo da vida, foi talvez a pessoa com quem mais me identifiquei em todos os sentidos e com a qual mantive sempre uma relação de grande cumplicidade. Sem margem de erro, diria que nas minhas relações amorosas nunca existiu uma tal comunhão de sentimentos. Podem então perguntar-me porque é que as coisas nunca avançaram noutro sentido. Apesar de me questionar muitas vezes o porquê de isso não ter acontecido, arrisco agora uma explicação. Talvez porque a nossa amizade se sobrepôs a tudo o resto e foi considerada, ao menos tacitamente, como algo ainda mais importante do que qualquer relação de amor e que era preciso manter a todo o custo. Porque como disse atrás, o A. apareceu na minha vida num período deveras complicado, em que foi preciso tomar decisões difíceis, e a sua indefectível amizade foi determinante para mim nesses momentos. Mas isto são apenas divagações de alguém que gosta de discorrer pensamentos sobre pequenas coisas que lhe vão acontecendo no dia-a-dia…
 


22
Mar 09

 

Ao blogue Felizes Juntos, do Paulo e do Zé, que hoje estão em grande plano na revista "Pública", suplemento dominical do jornal "Público". Numa entrevista conduzida por Anabela Mota Ribeiro, com fotografias de Clara Azevedo, o casal dá-nos a conhecer um pouco da sua vida. Afinal, "o Paulo e o Zé são felizes por causa do homem que têm ao lado". A não perder numa edição impressa ou aqui.

 


19
Mar 09

 

Já não é novidade para ninguém que frequento quase diariamente um ginásio. Gosto de o fazer, porque me ajuda a aliviar o stress e cria em mim hábitos de vida mais saudável, para além de ser importante no sentido de manter um corpo minimamente cuidado do ponto de vista estético. Aliás, numa época em que se promove e cultiva o ideal do "corpo masculino atlético", é natural que as preocupações e os cuidados com o corpo estejam na ordem do dia. Ninguém ignora que o corpo masculino na cultura gay contemporânea está subordinado a uma série de normas estéticas que se reflectem numa idolatrização do físico sempre jovem, que terá de ser perfeito e musculado como se observa facilmente ao visualizar as fotografias de nus masculinos nas revistas gay ou na internet. Isto porque a verdade nua e crua é que esta obsessão em manter a beleza, a juventude e o vigor físico é o preço a pagar, ainda que de forma inconsciente, para não se ser tratado da mesma maneira que todos tratam os gays velhos, fracos e feios. Afinal o que mais conta nos nossos dias é a imagem, a aparência e a juventude, e não tanto a inteligência, o conhecimento e a cultura de alguém, mesmo que esse alguém já tenha queimado as pestanas com os livros de uns gajos de nomes esquisitos tipo Husserl, Derrida e companhia…

 

Por outro lado, um ginásio e todos os espaços que o constituem são realmente sítios muito interessantes do ponto de vista sociológico. São lugares de encontro mas acima de tudo de exibicionismo e voyeurismo flagrantes. Na sala de musculação, é comum verem-se uns gajos, situados algures entre o bronco e o estúpido, a levantar pesos, a transpirar testosterona por todos os poros e a emitir uns sons que se assemelham a grunhidos, mas sempre a olhar... para perceberem se são vistos e eles mesmos para verem outros(as). Infelizmente, o "meu" ginásio não é de grande frequência gay. Parece que os gays da santa terrinha têm mais o que fazer... E porque é que eu digo isto? É que no "meu" ginásio só tenho sido engatado por mulheres... Lembro-me de uma que me seguia com o olhar para onde quer que eu fosse e que um belo dia se queixou a um dos "personal trainers" que eu não falava com ela (!). Escusado será dizer que isto não alterou a minha forma de me relacionar com ela. Vim a saber que estava em processo de divórcio e que uma das formas de fugir aos problemas e ultrapassar o stress inerente à situação era refugiar-se no ginásio. Algum tempo depois, abandonou o ginásio porque eu… não falava com ela (!). E não foi a única a engatar-me… É claro que também gosto de ver e de ser visto, mas não é preciso querer de facto, porque isso acontece naturalmente. E se por acaso fixamos o olhar em alguém, não por uma razão específica, e essa pessoa cruza o olhar com o nosso... meu Deus! Parece quase uma cumplicidade sexual, um chamamento para o acto! Mas de facto no "meu" ginásio é tudo muito hetero... E é por isso que eu reivindico: "Ginásios só para gays, já!"

 


14
Mar 09

 

Hoje escolhi um vídeo com algumas cenas do filme "O Segredo de Brokeback Mountain" e que de alguma maneira pode ilustrar o anterior post/pensamento. "O Segredo de Brokeback Mountain" é um filme que surpreendeu o mundo com a história de dois cowboys que descobrem a sua homossexualidade no meio de um ambiente hostil. A impossibilidade do encontro amoroso, impedido pela intolerância e pelo preconceito da sociedade envolvente... Ao mesmo tempo, mostra-nos a oscilação entre a aceitação e a negação da homossexualidade pelos próprios personagens. Uma história em que os valores sociais acabam muitas vezes por aniquilar o indivíduo…

 

 

 


 

Algumas vezes, dou comigo a pensar se existe alguma característica que possa diferenciar o amor gay em relação ao amor heterossexual. E invariavelmente chego à conclusão que não. É um amor que nasce tão sem explicação quanto o amor entre um homem e uma mulher. É o coração que bate mais forte. É aquela vontade de estar junto de quem se ama. É aquele desejo de partilhar a vida toda. De facto, não pode existir coisa mais banal. Afinal, acontece todos os dias em qualquer parte do mundo com gente de todas as raças, cores e religiões.

 

A única diferença que poderá existir relaciona-se com a postura que cada um adopta quanto ao sentimento em si. E essas diferenças manifestam-se tanto no amor entre pessoas do mesmo sexo como entre heterossexuais. Como todas as pessoas, os homossexuais não são pessoas isoladas do mundo exterior e tudo o que se passa na sociedade envolvente repercute-se ao nível das suas vivências e dos seus afectos. Estamos na sociedade do descartável, onde a vida passa a correr e as pessoas, todas as pessoas, têm sede de amar e ser felizes, mas muitas vezes não sabem o que é o amor e tornam-se egoístas porque a sociedade assim as moldou. Neste sentido, somos o produto das nossas próprias vivências e, porque não dizê-lo, das vivências dos outros, que nos afectam em maior ou menor escala. Há anos conheci um rapaz, que logo no primeiro encontro já me perguntava se eu queria namorar com ele enquanto babava literalmente por qualquer um que se aproximasse de nós… Perante isto, penso que cada um deve parar para reflectir que tipo de amor deseja dar e receber.

 

Voltando ao amor que une duas pessoas do mesmo sexo, vejo-o cada vez mais como um amor especial, considerando que se desvia do propósito do amor orientado para a procriação, superando assim todos os determinismos biológicos que encaminham o ser humano para a união com o sexo oposto, visando o cumprimento da função reprodutora da espécie. E dadas as circunstâncias sociais que habitualmente o envolvem terá de ser ainda um amor mais forte do que o amor heterossexual pelo valor inestimável das inúmeras provas a que tantos casais homossexuais se submetem diariamente por estarem com alguém do mesmo sexo. Por conseguinte, parece-me inadmissível que alguém, seja ele quem for, venha pôr em causa o amor profundo e verdadeiro e todos os sentimentos de afecto, carinho, intimidade e partilha que eu, como homossexual, sou capaz de nutrir por alguém do mesmo sexo.

 

Costuma dizer-se que uma relação heterossexual não pressupõe normalmente o acto de afirmação identitária da sua sexualidade e que um heterossexual ama sem pensar que é heterossexual. Em contraponto, diz-se também que um homossexual, ao fazê-lo, muito dificilmente se abstrai da sua identidade sexual. Mas pergunto-me se esta ideia não é originada a priori pela conformidade com aquilo que civilizacionalmente se foi interiorizando como "normal". E, como dizia acima, nenhum homossexual está imune ao ambiente cultural que o rodeia. De facto, nenhum homossexual é uma ilha isolada… Por isso mesmo, é natural que seja difícil que, de um dia para o outro, possa abstrair-se de uma realidade que lhe foi incutida como a única "normal" e admissível. Até ao dia em que finalmente essa dita "normalidade" seja encarada doutra maneira, também pelos próprios homossexuais, e todos possamos viver plenamente a nossa sexualidade…

 


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