Um blogue pessoal mas... transmissível

30
Jul 09

 

 

Há dias pude ler no Público a opinião de um leitor devidamente identificado que dizia sentir-se incomodado com o "destaque excessivo" que o referido diário tem conferido nos últimos tempos aos temas relacionados com a homossexualidade. Não sou fundamentalista e detesto todos os tipos de fundamentalismos. Por conseguinte, não me vou colocar aqui na posição de muitas pessoas que por serem objecto de uma opinião contrária parece quererem instaurar imediatamente a censura na boa tradição das ditaduras de todos os quadrantes políticos. Aliás, estamos num país livre e democrático (até ver…) e todas as opiniões são bem-vindas, desde que devidamente fundamentadas e não fruto de uma visão distorcida da realidade envolvente. Porque, como diz o nosso povo, "o pior cego é aquele que não quer ver".

 

Pois bem, o que me leva a escrever este post/pensamento é o facto de o referido leitor considerar verdadeiramente "inusitada" a visibilidade que hoje em dia é dada aos homossexuais e aos temas que abordam essa realidade. Pode-se perguntar então porque motivo é que o mesmo leitor não se queixa do destaque excessivo que é dado à heterossexualidade em todos os órgãos de informação. Parece-me que o referido jornal, ao abordar essa temática, mais não faz do que acompanhar a evolução social e cultural dos tempos, tendo como único objectivo fazer bom jornalismo e por isso mesmo não discriminando ou abafando uma realidade que pelos vistos não agrada a muitos leitores, mas à qual é preciso conferir cada vez maior visibilidade, sobretudo se tal visibilidade for aproveitada para que os homossexuais possam ver reconhecidos os mais elementares direitos de cidadania.

 

Refere-se o leitor à recente reportagem sobre a homossexualidade no Estado Novo, afirmando nomeadamente que o Público insiste de forma "desconchavada" em tais matérias. Torna-se por demais evidente que o leitor, e como ele muitos outros neste país de brandos costumes, não conseguiu ler criteriosamente essa e outras reportagens e artigos, pois se o tivesse feito, livre de preconceitos e afins, dar-se-ia conta que revelam, na minha opinião de simples leitor, uma apurada investigação jornalística. Também não parecem ser obra de um qualquer lobby gay como muitas pessoas obstinadamente acusam todos aqueles que tratam essas matérias livres de ideias e opiniões preconcebidas. Neste sentido, pergunto-me se um tal artigo de opinião corresponde àquilo a que habitualmente chamamos "direito de opinião" ou se, pelo contrário, é revelador daquela homofobia larvar de que ainda enferma grande parte da sociedade portuguesa.

 

Outra coisa interessante é a comparação que o leitor faz entre o diário português e o jornal espanhol El País. A meu ver, a comparação é perfeitamente desajustada. Isto porque os dois jornais se inscrevem em realidades sociais bem distintas. Por um lado, a realidade nacional em que a conquista plena dos direitos de cidadania pelos homossexuais ainda está por fazer, e se assim é nunca será excessivo o destaque que é conferido a essa temática. Por outro lado, o contexto do país vizinho em que essa consagração já foi alcançada, sendo por isso perfeitamente compreensível que já não faça tanto sentido falar dos assuntos que tanto incomodam o referido leitor. Aliás, a este respeito não é só na Península Ibérica que as coisas andam a duas velocidades. Por contraste, ainda recentemente a Suécia tornou-se no 7.º país a legalizar os casamentos homossexuais enquanto que, do outro lado do mar Báltico, a Lituânia aprovou legislação no sentido de proibir a divulgação da homossexualidade...

 

E não será pelo facto de estarmos a viver a chamada silly season que tudo parece valer, como diz o indignado leitor no seu artigo. Nunca será demais pugnar pela defesa dos direitos de cidadania que há demasiado tempo são negados a um grupo de pessoas pelo simples facto de possuírem uma orientação sexual diferente da maioria da população. Whatta fuck!? Afinal em que medida é que a minha orientação sexual pode afectar a vida do pacato leitor e de tantos outros por esse país fora? O que o deveria afectar em consciência é a forma como os homossexuais ainda são tratados na sociedade portuguesa. Isso sim deveria constituir um grave problema na consciência de muitas pessoas, especialmente na consciência de todos aqueles que com as suas posições públicas mais não fazem do que alimentar o preconceito homofóbico e acrescentar sofrimento a muitos homossexuais. Mas para todos aqueles que se preocupam realmente com que a democracia seja uma realidade neste país será de louvar que jornais como o Público tratem com o destaque merecido a homossexualidade e outros temas que saem dos padrões da dita "normalidade" para que, um dia destes e de uma vez por todas, esses temas deixem de merecer o "destaque excessivo" de que se queixa o referido leitor.

 


28
Jul 09

 

 

Neste fim-de-semana, eu e o R. decidimos fazer uma incursão na noite gay da Cidade Invicta. Confesso que há muito tempo que não frequentava a "cena gay" porque de cada vez que o fazia sentia que estava a desperdiçar o meu tempo e que aquele ambiente estereotipado pouco tinha a ver comigo.

 

Além disso, não sou grande apologista de locais que se podem confundir facilmente com guetos para onde se procuram atirar as pessoas indesejadas com o intuito de as ocultar da vista do comum dos mortais. É por estas e outras que a homossexualidade passa quase despercebida à grande maioria das pessoas. Sabem que existe mas encaram os homossexuais como alienígenas que se encontram regularmente em locais muito estranhos e obscuros. E por isso a homofobia continua a campear, especialmente nos pequenos meios, onde os homossexuais ainda têm mais propensão a "esconder-se" em locais como esses. Para mim, a homossexualidade tem de vir cada vez mais para a luz do dia e os homossexuais têm de "misturar-se" com todas as outras pessoas. Mas isto daria assunto para outro post/pensamento.

 

O que é certo é que o R. propôs-me uma noite de sábado diferente e desta vez eu acedi. De tudo o que pude observar nos locais por onde passámos - primeiro um bar gay friendly e seguidamente uma disco gay - é que realmente pouca coisa muda com o passar dos anos. À primeira vista, o ambiente até pode ser descontraído e agradável, mas rapidamente apercebemo-nos que a imensa maioria dos gays está ali com um propósito bem definido: engatar. Não interessa quem. O que interessa é engatar alguém para aquela noite ou para o que resta dela. É um autêntico "mercado de carne"... Acresce que muitas destas pessoas têm uma propensão doentia para opinar sobre a vida dos amigos, conhecidos, ex-namorados. Comenta-se sobre quem anda com quem, sobre o facto de A. e B. terem rompido, que C. anda à procura de nova relação, que D. veste mal, que E. engordou...

 

Posso estar a ser exagerado e a tomar a parte pelo todo, mas causa-me imensa confusão ver toda aquela gente com o único propósito de engatar alguém para uma noite de sexo. Acho que cada um deve ser livre de fazer o que quiser com a sua vida desde que isso não afecte a vida de terceiros. No entanto, questiono-me sempre sobre a razão de ser de um comportamento tão promíscuo. Será que ninguém tem expectativas mais elevadas em relação à sua vida sentimental? Parece que nestes meios tudo gira em torno do sexo e que para além dele nada mais existe. Eu gosto muito de sexo mas no estádio actual da minha existência já não me contento com sexo puro e duro. Para mim, actualmente, sexo sem amor não faz qualquer sentido. Porque sexo sem amor é um acto puramente mecânico sem aquele misto de sentimentos que só o sexo entre duas pessoas que se amam pode oferecer.

 

Depois ninguém se lembra que, por alguma razão, o sexo pode acabar de um dia para o outro, e nesse caso não fica mais nada. Não existe amor, carinho, companheirismo. Fica apenas solidão, carência, vazio. E frequentemente isso é a porta aberta para o suicídio. Por outro lado, também os gays envelhecem e quantas vezes, no meio da solidão e do desespero, procuram construir aquilo que na juventude e meia-idade não quiseram ou não foram capazes de construir. Parece que ninguém ou quase ninguém quer investir numa relação estável e duradoura que possa oferecer segurança e bem-estar na velhice.

 

E para não me alongar mais neste pensamento, diria que depois desta noite a minha opinião sobre estes locais em nada mudou. Apesar de estar acompanhado pelo meu namorado, fui insistentemente penetrado pelos olhares de quem ali se encontrava e por duas vezes até fui apalpado. Então quando o R. foi apalpado quase me passei! Por isso, resolvemos sair dali e procurar um local menos "obscuro" para acabar a noite...

 


31
Mar 09

 

 

Há dias fiquei a saber que o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, sediado em Genebra, inclui entre os seus membros países como a Arábia Saudita e a China, e ainda outros como o Egipto ou o Paquistão, países onde se pratica a tortura e a pena de morte e se violam diariamente os mais elementares direitos humanos. Ainda na semana passada, foi divulgada a notícia de que a China ocupa o primeiríssimo lugar no número de execuções sumárias em 2008, nada menos que 1718! Já para não falar na questão do Tibete, que permanece um assunto tabu para o regime chinês...

 

A propósito da Arábia Saudita e dos países muçulmanos em geral, não se podem esquecer as constantes violações dos direitos humanos, quase sempre desculpadas pela vigência da sharia islâmica. Por exemplo, no caso da homossexualidade, a Arábia Saudita pune a relação sexual entre dois homens com a pena de morte. E que dizer do Irão, onde o seu lunático presidente Ahmadinejad afirma não existirem gays? À semelhança da Arábia Saudita, a forca não é a única pena possível para as acusações de homossexualidade no Irão. A chibata é também uma alternativa quando não existem provas de que houve relação sexual. Por vezes, a sentença que recai sobre as acusações de "sodomia" tem tanto de medieval como de perverso. Para que conste, em Janeiro do ano passado, dois jovens gays foram condenados a serem colocados em sacos de plástico e atirados do alto de um precipício. Apesar dos apelos de várias personalidades e organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, a condenação foi cumprida…

 

Quando, no ano passado, Ahmadinejad declarou que o "fenómeno" da homossexualidade não existia no Irão, provocou o riso entre os alunos da Universidade norte-americana de Colúmbia. Evidentemente, a declaração é tão absurda que fez dele a caricatura de um líder fanático. Contudo, para os homossexuais iranianos, não há motivos para rir… Dito isto, só faltava mesmo é que o Irão também integrasse aquela organização das Nações Unidas para que a defesa dos direitos humanos fosse completa…

 


14
Mar 09

 

Hoje escolhi um vídeo com algumas cenas do filme "O Segredo de Brokeback Mountain" e que de alguma maneira pode ilustrar o anterior post/pensamento. "O Segredo de Brokeback Mountain" é um filme que surpreendeu o mundo com a história de dois cowboys que descobrem a sua homossexualidade no meio de um ambiente hostil. A impossibilidade do encontro amoroso, impedido pela intolerância e pelo preconceito da sociedade envolvente... Ao mesmo tempo, mostra-nos a oscilação entre a aceitação e a negação da homossexualidade pelos próprios personagens. Uma história em que os valores sociais acabam muitas vezes por aniquilar o indivíduo…

 

 

 


 

Algumas vezes, dou comigo a pensar se existe alguma característica que possa diferenciar o amor gay em relação ao amor heterossexual. E invariavelmente chego à conclusão que não. É um amor que nasce tão sem explicação quanto o amor entre um homem e uma mulher. É o coração que bate mais forte. É aquela vontade de estar junto de quem se ama. É aquele desejo de partilhar a vida toda. De facto, não pode existir coisa mais banal. Afinal, acontece todos os dias em qualquer parte do mundo com gente de todas as raças, cores e religiões.

 

A única diferença que poderá existir relaciona-se com a postura que cada um adopta quanto ao sentimento em si. E essas diferenças manifestam-se tanto no amor entre pessoas do mesmo sexo como entre heterossexuais. Como todas as pessoas, os homossexuais não são pessoas isoladas do mundo exterior e tudo o que se passa na sociedade envolvente repercute-se ao nível das suas vivências e dos seus afectos. Estamos na sociedade do descartável, onde a vida passa a correr e as pessoas, todas as pessoas, têm sede de amar e ser felizes, mas muitas vezes não sabem o que é o amor e tornam-se egoístas porque a sociedade assim as moldou. Neste sentido, somos o produto das nossas próprias vivências e, porque não dizê-lo, das vivências dos outros, que nos afectam em maior ou menor escala. Há anos conheci um rapaz, que logo no primeiro encontro já me perguntava se eu queria namorar com ele enquanto babava literalmente por qualquer um que se aproximasse de nós… Perante isto, penso que cada um deve parar para reflectir que tipo de amor deseja dar e receber.

 

Voltando ao amor que une duas pessoas do mesmo sexo, vejo-o cada vez mais como um amor especial, considerando que se desvia do propósito do amor orientado para a procriação, superando assim todos os determinismos biológicos que encaminham o ser humano para a união com o sexo oposto, visando o cumprimento da função reprodutora da espécie. E dadas as circunstâncias sociais que habitualmente o envolvem terá de ser ainda um amor mais forte do que o amor heterossexual pelo valor inestimável das inúmeras provas a que tantos casais homossexuais se submetem diariamente por estarem com alguém do mesmo sexo. Por conseguinte, parece-me inadmissível que alguém, seja ele quem for, venha pôr em causa o amor profundo e verdadeiro e todos os sentimentos de afecto, carinho, intimidade e partilha que eu, como homossexual, sou capaz de nutrir por alguém do mesmo sexo.

 

Costuma dizer-se que uma relação heterossexual não pressupõe normalmente o acto de afirmação identitária da sua sexualidade e que um heterossexual ama sem pensar que é heterossexual. Em contraponto, diz-se também que um homossexual, ao fazê-lo, muito dificilmente se abstrai da sua identidade sexual. Mas pergunto-me se esta ideia não é originada a priori pela conformidade com aquilo que civilizacionalmente se foi interiorizando como "normal". E, como dizia acima, nenhum homossexual está imune ao ambiente cultural que o rodeia. De facto, nenhum homossexual é uma ilha isolada… Por isso mesmo, é natural que seja difícil que, de um dia para o outro, possa abstrair-se de uma realidade que lhe foi incutida como a única "normal" e admissível. Até ao dia em que finalmente essa dita "normalidade" seja encarada doutra maneira, também pelos próprios homossexuais, e todos possamos viver plenamente a nossa sexualidade…

 


17
Fev 09

 

Como era de esperar, o debate de ontem no programa "Prós e Contras" da RTP1 não trouxe nada de novo a respeito da discussão sobre o casamento homossexual. Os mesmos estafados argumentos, os mesmos tiques homofóbicos, as mesmas agressões verbais. A meu ver, o único mérito que estes debates podem ter é colocar na discussão pública um tema que obviamente passará ao lado da grande maioria dos portugueses. Porque a vida real, o país real é outra coisa. Existe, de facto, muita homofobia em Portugal e ela está objectivamente do lado do "não". E eu poderia dar aqui o meu testemunho de que essa homofobia é real e não é invenção de alguém que acordou de mal com o mundo e de repente se lembrou de lançar umas atoardas.

 

Quanto ao tema do casamento homossexual e para não repetir o que já disse aqui, apenas quero reforçar que numa sociedade demo-liberal se devem respeitar as minorias, neste caso a homossexual, e promover a igualdade de direitos, neste caso o acesso ao casamento civil. Porque ao fim e ao cabo é disso que trata. O que neste e noutros casos poderia ajudar na compreensão do problema era a formação básica em direito nas escolas, para que se acabe de vez com a promiscuidade existente entre os conceitos de casamento do ponto de vista civil e do ponto de vista religioso/sacramental. É simples alcançar estas diferenças e aceitar o que elas significam, mas foram séculos duma vincada mistura entre lei canónica e lei civil que dificulta agora o saudável distanciamento de ambos os conceitos e realidades. A questão fundamental é a seguinte: o tempo passa e as realidades subjacentes a cada tempo modificam-se, e o mesmo acontece para o paradigma de pensamento que corresponde a uma determinada época. Por diversas razões, torna-se obsoleto, e as modificações que se sucedem no entretanto, que, na maioria das vezes são desprezadas por serem contra corrente, acabam por se generalizar a tal ponto que é necessário arranjar-lhes um enquadramento jurídico de forma a defendê-las e a reconhecê-las em igualdade com as outras que existiam anteriormente, e continuarão a existir, sem que com isso haja confusão entre ambas. Uma coexistência pacífica é mais do que suficiente. Não será preciso grande capacidade intelectual nem qualquer competência especial para perceber isto. É preciso ser apenas politicamente incorrecto e contra ventos e marés afirmar o óbvio…

 


16
Fev 09

 

 

Como já referi aqui, na passada sexta-feira pude assistir ao último filme de Gus Van Sant, um dos meus realizadores preferidos. O aclamado cineasta convidou um elenco soberbo, encabeçado pelo incomparável Sean Penn, para contar a história verídica de Harvey Milk (1930-1978), que a prestigiada revista Time considerou como um dos heróis do século XX. Cansado de se esconder de si próprio, Harvey abandona o seu bem remunerado emprego em Wall Street e decide "sair do armário", mudando-se para a cidade de São Francisco com o seu amante de longa data, Scott Smith. Na comunidade gay de Castro, pequenas vitórias conduzem a outras maiores e Harvey, ao falar abertamente para uma maioria silenciosa, acaba por ser o primeiro político assumidamente homossexual a ganhar umas eleições. Quando Harvey Milk foi assassinado em 1978, o mundo perdeu uma voz inconformada que se elevou corajosamente pela igualdade de direitos. O assassino confesso foi um ex-deputado conservador que recebeu uma pena de apenas 5 anos. A pena branda causou a revolta que levou a uma série de motins que ficaram na história do activismo gay nos Estados Unidos da América, os "White Night Riots". A revolta levou também à abolição no Estado da Califórnia da legislação que levava em consideração o estado mental do assassino, o que poderia diminuir a pena. Já em 1985, "The Times of Harvey Milk", sobre a vida e a morte do político, ganhou o Óscar de melhor documentário. Para a próxima edição dos Óscares, que serão entregues no dia 22, "Milk" conseguiu oito nomeações, incluindo a de melhor filme do ano. Na personagem de Harvey Milk, a genial interpretação de Sean Penn valeu-lhe mais uma nomeação (a quinta) para os Óscares na categoria de melhor actor principal. Um filme obrigatório que eu recomendo vivamente.

 


Ainda a propósito da igualdade de direitos, a RTP1 emite hoje à noite no programa "Prós e Contras" um debate sobre o casamento homossexual. À semelhança de debates anteriores, já estou a ver o filme: de um lado, os moralmente superiores e os politicamente correctos, do outro, os pervertidos e as aberrações da natureza. Mais uma vez, as legítimas aspirações de uma minoria são sacrificadas à vontade dominante (até quando?...) de uma maioria que se arroga o direito de decidir sobre a vida dos outros. Quase me apetecia dizer que precisamos também de um Harvey Milk entre nós...

 

 


20
Jan 09

Ontem, nas minhas deambulações nocturnas pela net e ao entrar num conhecido fórum de discussão sobre a actualidade, deparei-me com a questão inevitável do casamento homossexual, a propósito do compromisso (?) assumido por José Sócrates de avançar com o casamento entre pessoas do mesmo sexo na próxima legislatura. Perante a baixeza da linguagem e a pobreza dos argumentos, apeteceu-me logo escrevinhar uns pensamentos a propósito do assunto e que agora quero partilhar convosco.

 

1.º Nenhuma pessoa se deve sentir discriminada em função da sua orientação sexual. Por conseguinte, o casamento é um direito que deve ser garantido a qualquer cidadão, para que possa decidir em liberdade e responsabilidade o que fazer. Não é pelo facto de o casamento homossexual vir a ser legalizado que todos os gays e lésbicas se verão obrigados a casar. Por mim falo...

 

2.º Não vejo como a legalização do casamento homossexual possa ameaçar a família tradicional. De facto, não vejo como o casamento dos meus pais, que já passou dos 40 anos, possa ser afectado por isso. E também não vejo como um homem e uma mulher que se queiram casar possam deixar de o fazer pelo simples facto de o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo ser legal...

 

3.º Não compreendo nem aceito que se diga que o casamento homossexual contribui para a diminuição dos nascimentos e o progressivo extermínio da humanidade. Uniões homossexuais sempre as houve e haverá e se os casais heterossexuais não têm mais filhos é porque não podem ou não querem. Além disso, nenhum homossexual está impedido de procriar...

 

4.º Qualquer casamento civil, independentemente do sexo das pessoas que o contraem, é um simples contrato, com direitos e obrigações para ambas as partes, como qualquer outro contrato. Por isso, não entendo o stress provocado pelo nome que se deve atribuir ao instituto, quando se trata de pessoas do mesmo sexo. Já o matrimónio é outra coisa. É sacramento, pertence ao domínio da Igreja, e não é isso que está em causa.

 

Depois de todos os comentários que pude ler, começo a achar que Portugal merece estar na cauda da Europa. É que o último lugar assenta-lhe tão bem!


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